terça-feira, 29 de setembro de 2009

Champingnons Recheados

Tinham se separado mas mantinham relações cordiais ou, como as descrevia Marcelo, "saudavelmente hipócritas". Quando se encontravam conversavam civilizadamente. O que é surpreendente, pois o casamento terminara com a Helena atirando uma frigideira na sua cabeça.
Foi numa dessas convsas civilizadas que a Helena, depois de hesitar e pedir pra ele não estranhar o pedido, disse que iria receber umas amigas em casa para jantar na noite seguinte eperguntou se Marcelo faria os seus champignons recheados para ela servir às convidadas.
Marcelo ficou saboreando o momento, pensando nas várias respostas que poderia dar. Afinal, junto com a frigideira, ela lhe atirara a frase " E leve suas malditas receitas com você!" Agora estava pedindo que preparasse uma de suas malditas receitas. Para ganhar tempo antes de escolher a resposta, perguntou:
_Quem são as amigas?
_São novas, você não conhece. E então?
Marcelo sorriu, escolheu uma resposta irônica, mas simpática.
_ Vou precisar daquela frigideira. Você ainda tem?
Marcelo preparou os champignons à tarde e deixou instruções de como aquecê-los na hora de servir. Como esqueceu seu jogo de facas na cozinha da ex-mulher, foi busca-lo na manhã seguinte.
Helena custou a abrir a porta, depois abriu de camisola e com cara de sono.Tinha ido dormir tarde. Marcelo entrou e viu que a mesa de jantar ainda estava posta. Para dois. Duas garrafas de vinho vazias,uma emborcada. Dois copos,dois pratos de sobremesa e um cinzeiro sujos.
_Era só uma? _perguntou Marcelo.
_Uma o que?
_Amiga.
_Ah. É. As outras não vieram.
Marcelo examinou o cinzeiro.
_Só veio a que fumava charuto?
Helena fez um silêncio.Marcelo fz um sinal com a cabeça na direção do quarto de dormir. perguntou:
_Ele ainda está aqui?
_Não! Só jantou e foi embora. Eu não...
_Quem é ele?
_Você não conhece.
_ Muito bem, muito bem. Então eu preparei o alimento pra você dar a outro homem. Fui o fornecedor do meu próprio corneamento. Muito bem, muito bem.
_Ninguém corneou ninguém,Marcelo. E mesmo, nós estamos separados. Eu recebo quem eu quero e dou comida para quem eu quero!
_Os meus champignos recheados, não senhora!
_Pois quer saber de uma coisa? Ele odiou os seus champignons!
_O quê?!
_Odiou. Disse que já comeu muitos melhores e que o seu tempero está ultrapassado.
_Ah é? Ah é?
No fim daquela tarde, Marcelo telefonou para Helena.E pediu:
_Convida ele de novo.
_Quem?
_O cara de ontem. O que não gostou dos meus champignons .
_Eu não!
_Convida, Heleninha. Pensei em fazer o meu suflê de quatro queijos. Você acha que ele é homem de suflês?
_Eu não tenho a menor intensão de convid-lo outra vez.
_Pô, Heleninha. Ele merece outra chance. E eu também.
Helena cedu. Só não aceitou o pedido do Marcelo para ficar escondido na cozinha, espiando por uma fresta o homem comer o seu suflê. Perversão, não.



Crônica de Luis Fernando Veríssimo- Comédia da Vida Privada

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